Letra de Mulher Gaúcha - Nico Fagundes
Nico Fagundes
CD Poesias 1995
Disco A
01
Asas Cortadas
02
O Meu Violão
03
Coração Perdido
04
Aldebaram
05
Final
06
Andresito
07
As Ovelhas
08
Dia da Secretária
09
Ser Namorado
10
Fogo Verde
11
Canto de Morte Para o Poeta em São Borja
12
Colorado
13
Tango
14
Súplica
15
Mulher Querência
16
Professora de Campanha
17
Velho Euclides, Meu Pai
18
Mulher Gaúcha
19
Os Cavaleiros do Mar
20
Penúltima China
21
Gaúcho
Mulher Gaúcha
Os velhos clarins de guerra
Desempoeirando as gargantas
Quero-querearam no pago.
E o patrão coronelado,
Reuniu em torno parentes,
Posteiros, peões e agregados.
Chegara um próprio do povo
Trazendo urgente recado
Que se ia pelear de novo
E o coronel, satisfeito,
Dizia, fazendo graça:
"vamos ver, moçada guapa,
Quem honra a estirpe farrapa
E atropela numa carga
Por um trago de cachaça...Os velhos clarins de guerra
Desempoeirando as gargantas
Um filho saiu tenente,
O mais velho - capitão,
Um tio ficou de major.
(o pobre que passa o pior,
A oficial não chega, não:
O capataz foi sargento,
Um sota ficou de cabo
E a peonada, e os posteiros,
Ficaram soldados rasos
Pra pelear de pé no chão...)
Carneou-se um munício farto
- vindo de estâncias vizinhas -
Houve rações de farinha,
Queijo, salame e bolacha,
Se santinguando em cachaça
A sede dos borrachões.
E a não ser saudade e mágoa
Nada ficou pra trás
A garganta dos peçuelos
Misturava pesadelos
Sanguessugando, voraz,
Cartuchos e caramelos,
O talabarte e o pala,
Bolacha e pente de bala,
Fumo e chumbo - guerra e paz...
No humilde rancho de um posto,
Um moço encilhou cavalo
Beijou a prenda e se foi.
Na madrugada campeira
Luzia a estrela boieira
Sinuelando o arrebol
E as barras de um dia novo
Glorificavam o horizonte
Lavando a noite defronte
Com tintas de sangue e sol.
E durante largo tempo
Ficou a moça na porta
Olhando a estrada, a chorar,
Sem saber porque o marido
Tem que partir e lutar,
Não entendia de guerra!
Pobre só votam em quem mandam
E desconhece outra coisa
Que não seja trabalhar.
Então a moça franzina
Tomou uma decisão!
Esqueceu delicadezas,
Ternuras de quase -noiva
E atou os cabelos negros
Debaixo de um chapelão
E se atirou no trabalho,
Cuidando da casa e campo,
Do gado e da plantação.
Emagreceu e tostou-se
E enrijeceu como o aço!
Temperando-se na luta
Madurou-se como a fruta
Que é torcida no baraço.
Montou e recorreu campo,
Botou vaca, tirou leite
E arrastou água da sanga.
Fez do tempo a sua canga
No lento girar do dia
E quando as vezes parava
Comovida, acariciava
O ventre, que pouco a pouco
Se arredondava e crescia.
Só a noite, quando cansada
Fechava o rancho e dormia
Seu homem lhe aparecia:
Ora voltava da guerra,
Ora peleava - e morria!...
Que triste o rancho vazio
Nas longas noites de frio
Ou nas tardes de garoa!
Que medo de ir a estância!
(e ao mesmo tempo, que ânsia
De saber notícia boa!)
Vizinha perdera o filho.
Pra outra, fora o marido.
E um dos que tinham, morrido,
Um moço, que era tropeiro,
Quando feito prisioneiro
Tinha sido degolado
Sem nenhuma compaixão.
E até um filho do patrão
Se ensartara numa lança
Em meio a uma contradança
De berro, tiro e facão.
E o fulano? Que fulano?
Aquele, que era posteiro!
Moço guapo! No entrevero
É como um raio a cavalo.
Trezontonte levou um pealo
Mas é sujeito de potra:
Já está pronto pra outra,
Sempre disposto e faceiro.
E a moça voltava ao rancho,
Tão moça ainda, e tão só!
E quando fitava a estrada,
Só via o vazio do nada,
O nada o silêncio e o pó.
Não sabe quem vem primeiro,
Se vem o pai, ou o filho.
E os seus olhos, novo brilho
Roubaram de dois luzeiros.
Cada noite, cada aurora,
Vai encontrá-la a pensar:
Quando o marido voltar,
De novo estará bonita
- novo vestido de chita
E novo brilho no olhar.
E quando o filho chegar,
Quantas cargas de carinho
Carretearão os seus dedos!
Quantos e quantos segredos
Sussurrarão, bem baixinho!
E para ele, os passarinho
Cantarão nos arvoredos...
Qual deles chega primeiro?
E se um deles não chegar?
Mas a guerra segue além,
O filho ainda não vem
E ela a esperar e a esperar!...
Bendita mulher gaúcha
Que sabe amar e querer!
Esposa e mãe, noiva e amante
Que espera o guasca distante
E acaba por compreender
Que a vida é um poço de mágoa
Onde cada pingo d'água
Só faz sofrer e sofrer.
Desempoeirando as gargantas
Quero-querearam no pago.
E o patrão coronelado,
Reuniu em torno parentes,
Posteiros, peões e agregados.
Chegara um próprio do povo
Trazendo urgente recado
Que se ia pelear de novo
E o coronel, satisfeito,
Dizia, fazendo graça:
"vamos ver, moçada guapa,
Quem honra a estirpe farrapa
E atropela numa carga
Por um trago de cachaça...Os velhos clarins de guerra
Desempoeirando as gargantas
Um filho saiu tenente,
O mais velho - capitão,
Um tio ficou de major.
(o pobre que passa o pior,
A oficial não chega, não:
O capataz foi sargento,
Um sota ficou de cabo
E a peonada, e os posteiros,
Ficaram soldados rasos
Pra pelear de pé no chão...)
Carneou-se um munício farto
- vindo de estâncias vizinhas -
Houve rações de farinha,
Queijo, salame e bolacha,
Se santinguando em cachaça
A sede dos borrachões.
E a não ser saudade e mágoa
Nada ficou pra trás
A garganta dos peçuelos
Misturava pesadelos
Sanguessugando, voraz,
Cartuchos e caramelos,
O talabarte e o pala,
Bolacha e pente de bala,
Fumo e chumbo - guerra e paz...
No humilde rancho de um posto,
Um moço encilhou cavalo
Beijou a prenda e se foi.
Na madrugada campeira
Luzia a estrela boieira
Sinuelando o arrebol
E as barras de um dia novo
Glorificavam o horizonte
Lavando a noite defronte
Com tintas de sangue e sol.
E durante largo tempo
Ficou a moça na porta
Olhando a estrada, a chorar,
Sem saber porque o marido
Tem que partir e lutar,
Não entendia de guerra!
Pobre só votam em quem mandam
E desconhece outra coisa
Que não seja trabalhar.
Então a moça franzina
Tomou uma decisão!
Esqueceu delicadezas,
Ternuras de quase -noiva
E atou os cabelos negros
Debaixo de um chapelão
E se atirou no trabalho,
Cuidando da casa e campo,
Do gado e da plantação.
Emagreceu e tostou-se
E enrijeceu como o aço!
Temperando-se na luta
Madurou-se como a fruta
Que é torcida no baraço.
Montou e recorreu campo,
Botou vaca, tirou leite
E arrastou água da sanga.
Fez do tempo a sua canga
No lento girar do dia
E quando as vezes parava
Comovida, acariciava
O ventre, que pouco a pouco
Se arredondava e crescia.
Só a noite, quando cansada
Fechava o rancho e dormia
Seu homem lhe aparecia:
Ora voltava da guerra,
Ora peleava - e morria!...
Que triste o rancho vazio
Nas longas noites de frio
Ou nas tardes de garoa!
Que medo de ir a estância!
(e ao mesmo tempo, que ânsia
De saber notícia boa!)
Vizinha perdera o filho.
Pra outra, fora o marido.
E um dos que tinham, morrido,
Um moço, que era tropeiro,
Quando feito prisioneiro
Tinha sido degolado
Sem nenhuma compaixão.
E até um filho do patrão
Se ensartara numa lança
Em meio a uma contradança
De berro, tiro e facão.
E o fulano? Que fulano?
Aquele, que era posteiro!
Moço guapo! No entrevero
É como um raio a cavalo.
Trezontonte levou um pealo
Mas é sujeito de potra:
Já está pronto pra outra,
Sempre disposto e faceiro.
E a moça voltava ao rancho,
Tão moça ainda, e tão só!
E quando fitava a estrada,
Só via o vazio do nada,
O nada o silêncio e o pó.
Não sabe quem vem primeiro,
Se vem o pai, ou o filho.
E os seus olhos, novo brilho
Roubaram de dois luzeiros.
Cada noite, cada aurora,
Vai encontrá-la a pensar:
Quando o marido voltar,
De novo estará bonita
- novo vestido de chita
E novo brilho no olhar.
E quando o filho chegar,
Quantas cargas de carinho
Carretearão os seus dedos!
Quantos e quantos segredos
Sussurrarão, bem baixinho!
E para ele, os passarinho
Cantarão nos arvoredos...
Qual deles chega primeiro?
E se um deles não chegar?
Mas a guerra segue além,
O filho ainda não vem
E ela a esperar e a esperar!...
Bendita mulher gaúcha
Que sabe amar e querer!
Esposa e mãe, noiva e amante
Que espera o guasca distante
E acaba por compreender
Que a vida é um poço de mágoa
Onde cada pingo d'água
Só faz sofrer e sofrer.