Chega um dia em que o vivente
Sem saber mesmo por quê,
Olha no espelho e se vê
Maduro, sério, mudado;
Aquele ouvido apurado,
Os olhos de gavião,
A ligeireza da mão
E a própria força do braço,
Vão mermando no compasso
Do bater do coração...
Não é o fim; é um recomeço,
Em que o tempo é moeda nobre.
Um novo ser se descobre
Com o dom de refletir.
Menos falar, mais ouvir,
Menos pressa, mais vagar,
Menos julgar, mais perdoar,
Menos dizer, mais sentir...
Em vez do ímpeto, a calma;
Conselho em vez de xingão,
Mais jeito e moderação,
Menos medo do futuro...
Em vez de afoito, seguro,
Em vez de forte, experiente,
Menos vaidoso e valente,
Mais tolerante e mais puro.
É quando o homem se acha
Parecido com seu pai;
E esta semelhança vai
Se tornando realidade;
Os arroubos de vaidade
Se tornam vagas lembranças;
E os sonhos de esperanças,
Viram sonhos de saudade.
É lindo amadurecer
Como a fruta amadurece.
Pois como a fruta, parece
Que a gente fica mais doce.
Sem entender como fosse
Que agiu a natureza
É menos triste a tristeza,
Mais sossegado o sossego.
E até o amor e o achego,
Ganham ternura e beleza.
O tempo é a ferramenta
De Deus, eterno artesão,
Que vai nos moldando a mão
Com perícia e habilidade.
Nossa personalidade,
Um caráter firme e reto,
Toma forma por completo,
Conforme aumenta a idade.
...Chega um dia em que o vivente,
Sem saber mesmo por quê,
Olha no espelho e se vê
Maduro, sério, mudado;
Qualquer mágoa do passado,
A si mesmo se perdôa;
E abraçado na patrôa
Parceira nesta aventura,
Bendiz a idade madura:
“La puxa, que vida boa!